Há muito trilhavamos aquele obscuro caminho de sombra e de morte…
Estavamos sós, eu e meu pai.
Nada eu via, a não ser a proximidade em calor e sua voz aveludada: “fique perto de mim e não tenha medo”
Mas eu não via nada… mal sabia onde estava pisando.
Mas meu pai quis que eu o acompanhasse pelas terras malditas, onde jazia lodo e escuridão. Disse-me que iríamos buscar algo importante… que era para confiar nele.
Mas o medo estava me dominando.
Subia por minhas pernas como trepadeiras, me perfuravam como espinhos, se espalhavam como erva daninha… e eu dizia: “Pai… tenho medo”
E ele respondia: “não se preocupe, o que você vê são apenas sombras de enganos… ilusão passageira…”
Estava fraca e não conseguia mais andar… senti-me como tivesse adoecido, tinha perdido quase a noção do caminho trilhado… Então meu pai me pegou nos braços, e me levava.
Quando eu encostava em seu peito, o medo me deixava, e eu dormia… mas as vezes eu acordava, com os uivos guturais da mata, que em meu ouvido ardia.. O medo voltava e assolava minhas energias.
Sua voz apenas repetia: “fique em paz, minha filha… um tesouro escondido existe aqui, há muito guardado… é seu e vamos buscar. Mas só eu posso tirá-lo de lá. Então o mal da sua terra será eliminado, e finalmente com a coroa serás instituída, e todo o povo sairá de sua casa para receber sua rainha”.
Tantas coisas estavam em minha mente… difícil imaginar do que se tratava…
Pensava no lobo adoecido, na terra enfraquecida, no gelo furioso avançando contra os muros, o exército de fogo que aumentava, no meu próprio medo do escuro que avançava.. pela própria caminhava pelo vale da sombra da morte, onde eu estava… sim, em muitas coisas eu pensava…
Pensava nas sementes guardadas no forte… tanto tempo alí separadas e sem utilidade, no povo de dura cervis que estregavam suas crianças na calada da noite nas frestas das casas, numa comunicação inexistente com um povo de outra língua…
Minha cabeça parecia já não mais caber tanta coisa… e os uivos no escuro, o frio e o medo… medo que me assolava… nada eu entendia… apenas segurava o cordão já seco em minhas mãos…
Meu pai avançava, caminhando à dentro do pântano.. feliz, ele sorria, sempre dizia: “está tudo bem, estou aqui com você”
Porque eu tinha de ir junto, se só ele poderia tirar o tesouro de onde só ele mesmo sabia onde estava? Mas, não mais perguntava… cheia minha mente estava.
Lutava inerte contra o mal que me sugava…
Medo, para quê.. medo.. ?
Melhor fechar os olhos.
Durma menina… durma… estamos quase chegando..
(onde? tudo é igual aqui!)
Durma menina… durma… tudo o que você vê não existe… ilusões pra você paralizar e o mal te destruir… sim… ele está aqui, esperando você cair… mas eu não vou deixar. Eu mesmo vou te levar… então durma, menina.
Não se importe com os uivos… apenas durma, menina… durma…