Você trabalha todos os dias, enfrenta trânsito, depreciação de bens, impostos, taxas, descontos, avarias, passa nervoso atendendo a população… afinal, vc é funcionário público, tem uma vida pública…
Informações ao seu respeito estão livres para quem quiser saber… seu salário, suas notas, advertências, transferências, faltas, abonos, férias, benefícios, bens, dívidas, endereço, telefone, informações de crédito… e vc nem é uma celebridade…
Quem faz uso de redes sociais, tem ainda mais informações disponíveis, daí à propria vontade, fotos, cursos, formação, lugar exato e hora exata que vc está em algum estabelecimento comercial, ou estádio de futebol, ou supermercado, cinema, casa de parentes ou amigos…
Todo mundo sabe onde vc está, o que vc faz, onde vc mora, quanto vc ganha, o que vc deve, por onde vc anda, do que vc gosta, quem são seus amigos, parentes, onde eles moram…
Mas aí eu te pergunto: E o bandido? O que vc sabe dele?
Ele pode morar na sua rua, ter tanto acesso às suas informações, quanto as dele estarem disponíveis pra quem quiser ver…
Agora responda outra vez: quem está mais seguro com as informações livres e públicas na internet ou em orgãos de cadastro? Você ou o bandido?
Trabalho numa UBS em um bom lugar, situado num bairro calmo e tranquilo chamado Vila Moraes.
Não é aqueles lugares no meio da favela, e, sinceramente, hoje em dia fica quase impossível distinguir onde é área de favela e onde é área de não-favela, pois em todo o lugar existe uma comunidade não registrada pela prefeitura, de moradores que também trabalham, estudam e frequentam um posto de saúde da região.
Todos ou quase todos os dias tem um assalto (muitas vezes à mão armada) na porta da UBS.
Aqui não é um lugar escuro, ou mau localizado, ou feio. Aqui não tem mato e a favela da região fica até um pouco distante do posto.
Teve casos do elemento aguardar o pediatra terminar o atendimento do seu filho e aborda-lo no portão, levar seu dinheiro, carteira, carro e etc.
E, na semana seguinte, o mesmo elemento voltar ao posto necessitando de um novo atendimento.
Pessoas entram, exigem “direitos” querem ser bem tratados, gritam, desrespeitam e até lesam o profissional da saúde (indiscriminadamente, seja médico, enfermeiro, tecnico de RX, atendente, adm, farmaceutico…) quanto aos seus bens, conquistados com o suor do seu trabalho, e à sua integridade física e psicológica.
Onde está o cumprimento da lei de desacato ao funcionário público, com pena de reclusão em cadeia?
Ontem uma quadrilha invadiu o meu serviço, e, enquanto dois abordavam médicos na porta do lado de fora, tentando levar seus carros (duas tentativas) e chegaram a levar o carro da minha colega, dois deles entraram foram nos consultórios e pilharam algumas bolsas, levaram alguns celulares e outros pertences.
Depois que os caras que levaram o carro fugiram, os outros dois ainda perambulavam dentro do posto, depois na porta, até finalmente irem embora por não ter mais o que fazer ali.
Aí eu pergunto: cade a segurança?
O bandido entra, leva, aterroriza, e ainda tem tempo de ficar embaçando e nada acontece.
chamaram a polícia, foi aquela correria, gritaria… mas, o que houve com o bandido? Nada.
Indignação, revolta, tristeza.
Sinceramente não dá pra saber nem o que pensar.
E ainda o funcionário público é que é o vagabundo. Que tem dinheiro a vontade pra ser pilhado sem notar falta disso. Tem por obrigação atender como que à realeza o desgraçado que vai aguardar lá fora o final do expediente pra se garantir que vc vai voltar lesado e sequelado (e a pé) pra sua casa.
De quem é a culpa?
Não acredito que reparticionar a culpa seja a solução, pq da mesma forma como o problema é crônico, o seu foco também é.
A humanidade é o problema.
É o egoísmo, o egocentrismo, o sentimento falso de poder de quem não tem carater.
É a ignorancia de seguir propagandas políticas mentirosas, que demonstram estatísticas forjadas de crescimento. É uma política que só favorece à quem pode.
É a população que vai pela cabeça da maioria, acreditando que eleições significa uma luta medíocre entre o PSDB e PT. Esquece-se (por não procurar – preguiça) que existem opções. Existem saídas!
Pessoas inertes que não reagem a nada. Nascem subjulgados que sempre serão saqueados.
Gente que acredita que é esperto e só há futuro pra quem não tiver moral.
Pessoas que acham mais bonito mostrar na internet o quanto são legais, os melhores, os capazes, os poderosos, os divertidos… forjando para si, propagandas e estatísticas enganosas a respeito de si próprios. Esquecem que o bem comum é bem individual.
Acham que possuem direitos hereditários de tirar vantagem de alguém pq há muitos anos atrás, determinadas etnias foram desfavorecidas, e agora ele é o porta-voz da justiça-às-próprias-mãos para o próprio benefício.
Visão arrogante e petulante que o torna incapaz de enxergar quantas pessoas doentes aguardam na mesma fila, na sua frente, para serem atendidos.
Não se trata de quem mora na favela.
Não se trata de quem é pobre e desempregado.
Não se trata de quem é afrodescendente.
Trata-se do ser humano.
Trata-se do pensamento de acreditar que está em “terra de ninguém”, e se acomodar com jazidas, jazendo também o seu interior.
Onde está a coragem para tomar atitudes que façam de fato a diferença?
Coragem pra roubar tem de sobra.
Onde está a segurança das pessoas honestas, que procuram fazer o seu trabalho, que são obrigados à fazer milagre num atendimento público onde faltam profissionais, salários, equipamentos e recursos?
O “quebrar o galho” tornou-se obrigação inerente do funcionário público enquanto o governo apresenta lindas estatísticas de avanço que nunca saíram de uma monografia de economia. Mundo utópico que não condiz com a realidade.
Pessoas atacando pessoas pq possuem a ilusão de que o fato de ser público, pode ser destruído. Incutindo medo no servidor e ódio em usuários, violência e violência.
Quem vai querer trabalhar num serviço público?
Ter que conviver com assaltantes batendo o ponto junto à sua folha de presença?
Receber muito abaixo de sua profissão, só porque seu salário não segue os padrões do emprego particular, também sucateado?
Ter como obrigação fazer tudo, muito além de sua função, sem recursos, sem equipamentos, tendo que lidar com o vandalismo do próprio usuário que acha que pq é público, não tem custo. Como se fossem bananas expostas nas encostas da estrada. Só estender o braço e levar pra casa quantas puder…
Pessoas que entram no banheiro, desparafusam o protetor de papel higiênico e levam um cilindro de quase 1kg de papel pra usar em casa, ao invés de ir ao mercado e comprar seu pacote por 2 reais.
Revoltante mas não pq ninguém vê.
Todo mundo vê.
Mas ninguém faz nada.
Continuam votando errado, sendo conivente com bandidagem, doando tudo sem as vezes receber nada.
Estudo, trabalho… a pessoa se esforçou pra estar alí. Só os melhores conseguiram passar.
Profissionais muito mais qualificados que em um emprego particular…
São sucateados assim como a mobília q nunca é trocada, reformada ou mantida.
Suas coisas particulares saqueadas como os insumos do local de trabalho. Como se o fato de serem pessoas públicas tornasse também as suas coisas, coisas públicas. Bananas da calçada.
Salário que nunca é condizente com a realidade… pq o senhor prefeito precisa colocar-se à par da realidade aumentando seu próprio salário e de seus camaradas no gabinete da prefeitura em 183% do valor do prefeito anterior. Ganhando por mês o equivalente à uma casa ou apartamento popular.
Somos obrigados à participar de cursos e eventos “motivacionais” que procuram incutir na nossa cabeça a satisfação e alegria de possuir um emprego público, mas sem dar recursos financeiros para tornar sua vida mais digna.
E vc chega no serviço, o usuário acha que vc recebe o mesmo salário do prefeito, te assaltando, te desacatando e saindo impune.
Muito, muito revoltada.
Está tudo errado. Erro crônico, fatalidades em cadeia. So um milagre pra tornar nosso país num lugar digno pra todos… esforço este que depende de todos nós.
Um “nós” nunca conjugado, lição nunca aprendida, pq o jovem ao invés de ir pra escola pra estudar, vai pra desacatar o professor, defendido pelos pais. Vai pra espancar colegas, assaltar funcionários da secretaria.
Este é o homem civilizado? Me parece mais uma selvageria.
A nação precisa sim de um milagre. De uma transformação por completo. A nação precisa é de Deus.
Mas Deus não invade a sua casa… e esta decisão é individual.
Um individual que afeta o coletivo.
Mas, quem tem tempo pra Deus? Ou para o social? Ou para o trabalho? Ou para o estudo? Ou para o mero, simples e individual respeito ao alheio?
Pode não ser politicamente, mas estamos em guerra, meus senhores. Guerra da humanidade contra ela mesma.
Já vivemos no apocalipse.